Este é um texto que um grande amigo meu escreveu e publicou em seu blog. Ele trata à respeito do meu cotidiano, da minha vida, de onde moro e de minha grande paixão; o xadrez. Segue na íntegra o texto deste Mann.
Alexander segurou o cavalo com o polegar e o indicador percebendo que não era o lance correto, paralisou-se por segundos evitando demonstrar qualquer sinal de hesitação, Alexander tinha a mente desligada do corpo. Soltou a peça e olhou distraidamente para o lado. Na rua, seu séqüito de crianças corria atrás de uma bola velha e meio murcha. Todas elas sujas, descalças e maltrapilhas. Alexander as expulsava às ameaças quando se aproximavam do xadrez, o território que habitava imaterialmente. Dava migalhas a um cachorro que passava repetidas vezes por debaixo de sua cadeira, ao mesmo tempo em que prestava atenção ao carro da polícia encostando, um bar pequeno, os policiais saindo apontando armas, os homens do tráfico sem camisa e com óculos escuros, todos encostados na parede. As crianças interromperam a partida por instantes, atentas à abordagem policial aos seus tios, primos, irmãos e pais. Não encontraram nada. Entraram no carro e seguiram para dentro da vila. Alexander viu seu adversário apontar a peça que jogara e pensou que seu próximo lance seria dobrar as torres na coluna aberta, era muito comum para ele, vencer os adversários visíveis. O invisível vinha lhe respondendo à altura de seus bons lances, controlava a partida, muitas vezes não o deixava escolha, determinava uma única opção de jogada para Alexander, uma opção completamente prevista e que infalivelmente o conduziria à morte. Alexander, com seu desespero disfarçado, fazia seu único lance possível, carregando a dor aguda de saber-se com um movimento a menos, um movimento inútil e o único possível. Uma potência infinita desperdiçada. Algo que via tão claro como os jogos que vencia, como as torres que dobrava agora na coluna aberta, uma potência infinita, uma vitória iminente, sempre prestes a acontecer e certamente jamais aconteceria. Alexander acabaria tristemente se conformando, fazendo os lances que lhe restavam contra o invisível. Soltou a torre sobre o tabuleiro cantando desafinado e com erres no lugar dos eles. As crianças voltaram a chutar a bola, elas tinham esperança. Alexander guardava em si, com naturalidade, a idéia de saber-se potência infinita e inutilizada, e isso, na idade dele, era quase como ter esperança. Após outro lance primário de seu adversário, Alexander encerra a partida trocando uma torre e conseguindo o mate com aquela que lhe restara. Despediu-se e entrou em casa pensando, se numa partida com um adversário invisível com um tabuleiro invisível poderiam haver casas a mais e peças a mais, nunca pensara nessa possibilidade, e ponderava se as coisas não permaneceriam iguais visto que seu adversário invisível também teria os mesmo benefícios da infinitude de peças e casas. Concluiu que sim. Mas agora achava que poderia por alguns momentos estar à frente na partida e determinar alguns lances do oponente invisível, sentir-se conduzindo, e, ao sentir, guardar a sensação, como se saísse vitorioso, pensou ainda, a única coisa que se vai é o rei, o rei é só uma peça, o momento em que ele se vai é ignóbil, insignificante, imemorável. Alexander sorriu, subiu na cama de cima da beliche de seu minúsculo quarto, sabendo que valia a pena jogar bem, que isso era vencer, que não era só conseguir o rei adversário.
Por Ferroni, Fabio O Oponente Invísivel, fonte http://www.oinacessivel.blogspot.com/







